quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A história redundante de uma Rainha do interior

Todos os dias ela levanta
sempre às 05:40 da manhã
ajeita a casa
arruma a marmita
dá um beijo nos filhos
e vai.

Pega o ônibus de sempre
lotado
encontra as amigas
coloca a fofoca matinal em dia.

Na casa da patroa
lava louça
lava roupa
cozinha
recebe o mísero salário
e pega outro ônibus.

Chega em casa
grita para a filha sair do computador
manda o filho guardar a louça
toma um banho
troca de roupa
prepara a janta.

O ex marido liga
a pensão vai atrasar novamente
reúne os filhos à mesa
puxa a oração
todos comem em silêncio.

Ela senta no sofá
conversa com os filhos
continua o tricô
e assiste as desgraças no jornal.

A novela começou
sua distração favorita
ela não perde um capítulo
sorri e chora com os personagens.

Às onze coloca os filhos na cama
e vai para o quarto
pensa nas contas
pensa na vida.
Há muito ela não chora
decidiu ser forte
quando se viu sozinha.

Depois de muito rolar na cama
ela adormece
e sabe que o peso da coroa
têm sido maior que o da cruz.


Daniela Silva

7 comentários:

Renan Mendes disse...

Bem legal!

Samuel Balbinot disse...

Bom dia Dani.. uma poesia muito expressiva retratando os dias de muitas mulheres por este Brasil afora.. só discordo de uma coisa que as pessoas insistem em fazer que é jogarem fora tanto tempo para assistir as baixezas de um jornal e se contaminarem com novelas de baixo escalão que só tendem a nos alimentar sentimentos negativos.. raivas etc.. bjs e até sempre

Luana Natália disse...

Infelizmente, você retratou a exata realidade de muita mulher por aí :/
Acho bem legal esse seu jeito de transformar qualquer assunto em poesia!

Beijos

Jade Amorim disse...

Quando eu comecei a ler eu me lembrei na hora aquela música Cotidiano do Chico Buarque. Muito mesmo.
Gostei bastante e o final foi, tipo, chave de ouro. Adorei.
Até postei no twitter e fiz um pequeno mershan... haha

Beijos.

Rapha Barreto disse...

E quantas rainhas existem hein.
Adorei o poema e que Deus sempre abençoe estes lares (não só estes, como todos).

Beijos

http://mylife-rapha.blogspot.com

Fábio Murilo disse...

Vejo esse filme cotidianamente. E você exteriorizou brilhantemente e sem meias palavras, como é a crueza da vida dessas mulheres. E esse final então, primoroso: "Depois de muito rolar na cama ela adormece
e sabe que o peso da coroa
têm sido maior que o da cruz". Parabéns Dani!

http://apoesiaestamorrendo.blogspot.com.br/

André Foltran disse...

Belo retrato.